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18 de Março de 2019

Quando o pai esquece do filho do primeiro casamento

Abordagem unilateral, que narra sobre pais que abandonam seus filhos

Amanda Dudeque, Estudante de Direito
Publicado por Amanda Dudeque
há 2 meses

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Dizem que pedras não falam. Quem diria se soubéssemos ao menos decifra-las. Enfim, a de se dizer que numa estrada havia pedras muitas pedras, e nelas escolhas. Ele escolheu se casar. Nova rota, nem mais um abraço caloroso na esquina do quarto, nem mais brincadeiras na praça da sala.

Foi o destino escolher eu, herdeiro do segundo casamento, todas as quartas-feiras você prometeu que iria voltar a nós ver, mas o tempo foi passando e você escolhendo outras em outros lugares. Sua vaidade aumentou, sua ostentação supria seu amargo sucesso, mas não sabia que deixou na estrada da vida, uma parte sua.

Ontem liamos livrinhos juntos – era o que podíamos na época – hoje se apaga com a nova casa. Crê severamente que o tempo voou e seus filhos cresceram o suficiente para não mais ter a necessidade de tê-los como “filhos”, como se pode dizer uma emancipação de torna-os órfãos, independentemente da idade.

Aquelas crianças que sonhavam em ser como você, perdiam-se em suas rotas e não encontravam mais o seu caminho. Nem uma fralda trocada, era apenas pensão, uma linha em seu contracheque. Não existem mais quartas-feiras, apenas poeira do passado. E o filho se pergunta o que fez para o papai não o amar mais, e sim uma nova mulher com quem está no momento. Deixou para trás filhos e negou qualquer semelhança a vida anterior, negando a paternidade do primeiro casamento. Homem patriarcal, oito ou oitenta. Tudo ou nada. Não mais um pai, mas um homem que ameaça sonhos e destinos.

Mamãe era no avesso, chamavam-na de louca, de tanto que nos amava. Colocava a letra do nosso nome na meia, coleciona desenhos, e em suas gavetas eram cheias de amor, com memorias nossas. Não deixa que as trajetórias da vida deixassem malas para trás, levava consigo sua essência.

Papai costuma se omitir no momento do desabafo. Trocava de personalidade que nem de roupa, trocava de amor, enfim o que quiser à si. Quando namorava, esquecia das quartas-feiras (diferente da mamãe, que administra o final de semana com o apoio da vovó).

Para ele conciliar uma nova vida e a profissão com seus velhos laços afetivos, é complicado. Não é capaz de enlaçar com a vida atual. É “dune dune te, sonho encantado, cadê você?”

Ele se separou de uma mulher, não dos seus filhos, mas culpa os filhos por existirem. Acreditava que a vida era como um jogo, que poderia dar reset e começar tudo novamente. Ou entende que o filho deva ir atrás, e planeja histórias dramáticas para soar como vítima em meio a essa vida. Pobre homem de espirito, mas rico de bens materiais que servirão de nada depois de morto.

Magoado, fala mal dos filhos do primeiro casamento para a mulher do segundo casamento, alegando ingratidão. E a mulher do segundo casamento concorda com o absurdo porque está preocupada com o nenê e deseja a exclusividade do marido. E não entende que um irmão depende do outro irmão, que uma família não cresce por empréstimos.

Homem tem que aprender a sofrer, precisa se afogar na empatia, prestar atenção que uma hora não terá mais aquela criança. Sobrenome não completa sentimentos, pensão não alimenta o amor. Não adianta mudar de vida, pois o passado vai se repercutir em sua mente, e mesmo que esconda as fotos e apague momentos, as memorias existem, aquelas crianças irão crescer. As pedras avisaram que suas escolhas teriam consequências, mas eram muitas e você escolheu o que era melhor, talvez pra cada um de nós, enfim escolheu.

*Trata-se de uma abordagem unilateral, que narra sobre pais que abandonam seus filhos. É claro que existem outras visões sobre o assunto, mas nesse texto tive o interesse em abordar dessa forma o tema.

* inspiração, Carlos Drummond de Andrade, como assim dizia em seu poema de 1928:

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra tinha uma pedra
no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra."

1 Comentário

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Esse artigo me fez voltar no tempo de criança aonde tinha um vazio. Quando eu brincava de boneca, a boneca-mamãe sempre tinha muito que fazer, mas eu nunca sabia o que fazer com o papai-boneco de modo que o mandava dizer; “Agora vou trabalhar”, e jogava-o para debaixo da cama.
Um dia no meio dessa brincadeira de casinha resolvi pegar o boneco-papai debaixo da cama espanei-o e o pus sobre minha cama e fiquei olhando fixamente para ele, mas ele nunca fazia nada e eu continuava sem entender.
Leis! Não há lei que resista ao abandono. Só Deus, quiça Alah! continuar lendo